Repensando a Disciplina

  • Juliana Ribeiro e Câmara Lima

Quase sempre, quando pensamos em indisciplina nos referimos àquelas crianças bagunceiras, desrespeitosas e agressivas, porém, indisciplina em sua forma mais abrangente também aponta para certos sujeitos "bem comportados", que não demonstram ruidosamente nenhum descontentamento, contudo são irresponsáveis, desinteressados e não comprometem-se em empenhar sua palavra; suas escolhas parecem estar sempre em conformidade com de outro alguém, ou se agarra a um "não sei" resignado, que serve como cúmplice para nada dizer. Cutucamos sua curiosidade; convocamos seu desejo com brincadeiras, jogos, música, mas ela não se move. Fica na mesmice, congelada na sua própria inércia. Essa criança, também necessita que a cuidemos. São os dois extremos da indisciplina.

Se buscamos formar pessoas capazes de se responsabilizar por suas próprias escolhas, devemos pensar sobre o modo de disciplinar. Reconhecemos que o modelo convencional e opressivo, à base do grito, da palmada e do castigo podem realmente estancar, mesmo que provisoriamente, um comportamento indesejável. Entretanto, cabe frisar, a coerção age pelo medo, provocando muita ansiedade. Para evitá-la, muitas vezes, a criança passa a mentir e a conviver com a experiência da insegurança. Não se trata, portanto, de conseguir a disciplina a qualquer preço, mas buscá-la por motivos coerentes com a formação de sujeitos éticos. Sujeitos estes, capazes de refletir e avaliar sobre o certo e o errado e não apenas reproduzir condutas esperadas, ou rebelar-se, contra tudo ou contra todos, aleatoriamente.

Nesse sentido é precioso que se cultive no interior da família, mesmo antes do período de escolarização, certos valores que funcionem como orientadores máximos da conduta do sujeito no convívio grupal. Em primeiro lugar os pais (ou substitutos) devem ter a clareza que são os responsáveis por fornecer à criança a noção de limites, encarnando o papel de autoridade que deve cuidar, valorizar, orientar, e também, quando necessário mandar. Impor limites, isto é, dizer não na hora certa, pode (e deve) acontecer com respeito, carinho, consideração e solidariedade. Apesar da firmeza, o diálogo e explicações têm que ter seu lugar em relevo, para que se compreenda o contexto da regra, e portanto, sua coerência. Favorecer um espaço no qual as emoções possam ser faladas, escutadas e valorizadas; mesmo que as opiniões não concordem, que não seja possível o consenso, poder ouvir o diferente é lição de respeito à palavra do outro.

Tais limites representam, antes de mais nada, a percepção de que existem direitos e deveres para todos, sem exceção. A regra básica de respeito recíproco, na qual ninguém, ninguém mesmo, pode ter ou fazer tudo quando quer. Esse é o preço de seu ingresso social. Disso depende o respeito às leis, a responsabilidade sobre seus atos, a formação do caráter.

Ser condescendente com o espaço do outro e ao mesmo tempo não permitir que invadam seu pedaço, não é algo que se consegue de mão beijada. É fruto de muita conversa. Para tanto a maturidade de quem educa é fundamental, pois, como já disse, não se trata de conseguir o que se quer a qualquer preço. É preciso que o adulto se autorize a dizer o não em seu próprio nome, sem subterfúgios, sem chantagens; por exemplo, tem gente educando (ou deseducando) ao dizer, "não vá ali pois é perigoso... se você for a polícia vai te pegar", ou, "o homem de preto", ou ainda, "conto tudo pro seu pai", ou pior, "papai do céu castiga." Estas cenas, longe de ensinarem o limite, apontam na verdade uma dificuldade em fornecê-los. Afinal invocar seja lá quem for, aponta para a própria incapacidade que este adulto tem de garantir, através de uma argumentação calcada na verdade, que se faça cumprir o não. Ele próprio não se autoriza em garantir para criança o espaço de sua segurança e boa educação.

Aqui cabe uma ressalva: limite não é uma coisa que se impõe a partir de certa idade ou de algum momento do desenvolvimento infantil; ele deve estar inserido em um contexto muito específico- quando há excesso ou invasão, deve haver limite. E isso é desde criancinha: quando batia na mãe, chutava a professora, gritava com a empregada, se jogava no chão, na maior birra, porque queria comprar metade do supermercado.

Sob a fachada de superprotetores, alguns, são na verdade de uma permissividade que beira o abandono. Sentem-se culpados por dizer não, sem perceber que sem o "não" a criança fica impedida de exercitar sua capacidade de ceder ou de negociar. Além disso, coloca-se para a criança uma ilusão perigosa: de que se pode agir de qualquer maneira, impunemente. Não percebem que na realidade desprotegem, pois na vida real, irá se defrontar com o não e com todas as conseqüências de suas atitudes. E aí? Irá espernear, berrar, pois não tolera que algo lhe falte e que o mundo não gire em torno de seus desejos. Ou sua contrapartida fica ali como que imóvel, paralisada, as lágrimas escorrendo, sem poder dizer de seu desejo, e sem falar de sua indignação.

Limite se constrói desde o começo, não cai do céu. E a família pergunta, como é que faz?... e a escola questiona... a criança testa e desafia; quer ver se temos a clareza do porquê não; clareza esta que nos fornece a segurança de colocar o limite. Pois não se trata de dizer não porque se tem vontade, mas de poder garanti-lo quando necessário.

Para tanto, é preciso olhar para nossas próprias atitudes para percebermos, antes de mais nada, como nós, educadores, pais e professores, estamos lidando com nossos limites. Como reagimos quando são nossas vontades que não podem se realizar. Qual é o exemplo que mostramos diante da frustração; qual o valor da palavra empenhada; se respeitamos a lei ou a sabotamos; se reconhecemos nossas fraquezas e podemos falar das dificuldades... revelando que até nós, os considerados "todos poderosos" das crianças também temos limitações e incertezas; enfim, algo que falta.

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