Comemorar o Halloween? Sim.

Ana Priscila Griner

Diretora do IECE- Instituto Educacional Casa Escola

 

 

Um grupo de pais atentos aos assuntos trabalhados com seus filhos na escola, questionou o fato da Casa Escola realizar a festa do Halloween. Contra esta comemoração, os pais alegaram que o Halloween é uma manifestação cultural americana, também considerada importante para o esoterismo. Apesar de desconhecer a relação desta festa com o ocultismo, ao pesquisar mais a fundo, realmente me deparei com esta vertente.

 

Portanto, sentindo-me pressionada como diretora, porém não convencida da ênfase religiosa alegada, reuni a garotada para o conselho de alunos. Fiz o papel da advogada do diabo, posicionei-me em oposição à festa para sustentar os argumentos colocados pelos adultos.

 

Fiquei orgulhosa dos meus alunos. Com muita clareza e simplicidade eles protestaram o viés do culto às bruxas. Ademais, acrescentaram às suas alegações que, assim como se permitiu a entrada do futebol para o quadro cultural brasileiro, o Halloween, que é de origem celta, podia fazer parte do nosso repertório. Também contestaram a nacionalidade americana das bruxas e sabiam que estas figuras imaginárias eram provenientes da Velha Europa, exatamente do período da Inquisição – invenção cristã contra curandeiros e mulheres que representavam ameaça ao absolutismo imposto pela Igreja. Quanto aos mitos nacionais - os sacis e os curupiras – disseram que estes já povoavam a escola através de diversas manifestações culturais autenticamente brasileiras. Enfim, era notável que eles sabiam.

 

Mesmo assim, para melhor autorizar a réplica dos alunos, Paolo Guiliano autor de numerosos ensaios sobre literatura de fantasia, afirma que o “Halloween”, em sua versão secularizada, descartou o sentido católico de Todos os Santos, mantendo o aspecto lúgubre do além, com os fantasmas, os mortos… um aspecto que se tenta exorcizar (em bom tom) com as máscaras e brincadeiras”. Afinal por temermos a morte e justamente por desconhecê-la sentimos o prazer em sua carnavalização.

 

Importante discernir que bruxas, fantasmas, monstros, vampiros, estas figuras fictícias, se forem trazidas à escola com o intuito de exercitar a imaginação, as emoções e a subjetividade do aluno, tornam-se parte de um trabalho de fundamental importância. Por um lado saber brincar com personagens fantasmagóricos, por outro saber diferenciar entre o que é real e o que é irreal. Por fim, brincar com os mitos é uma forma saudável de desmitificá-los.

 

De certa forma sabe-se que cultura se comporta assim mesmo - sofre influências, transformando-se o tempo todo. É por isso que o football chegou a nós, brasileiros, através dos ingleses - os dominantes da época (séc XIX) - e atualmente é considerado o esporte nacional. Só para ilustrar, no ano de 1897, uma equipe de futebol inglesa chamada de Corinthians fez uma viagem, contribuindo para propagar o futebol em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil. E com o abrasileiramento da língua, o football transformou-se no nosso futebol.

 

Portanto, há de convir que não exista nada originalmente brasileiro, tudo que se refere à cultura, língua e costumes é herdado num eterno troca-troca entre toda a humanidade, mesmo que uns recebam mais e outros dêem menos.

 

Essas influências incidem sobre nós e são provenientes, principalmente, da cultura dominante em voga - desta vez, a americana. Aliás, não é a toa que a Língua Inglesa é a segunda língua adotada pelas escolas; e se realmente prezamos pelos nossos alunos, devemos sempre associar a aprendizagem da língua à cultura.

 

Por isso sem xenofobias e nacionalismos. Abrir as portas, sim ao Halloween, revendo sua origem histórico-cultural, sem deixar cair no consumismo e, sobretudo no ocultismo por onde os pais, com razão, não gostariam de ver seus filhos enveredar.

 

Com o festejo do Halloween na Casa Escola, não queremos idolatrar e nem cultuar ninguém. Ao contrário, o Haolloween é uma boa chance de desmitificar os mitos e de fazer perceber como a cultura, caso eleita com consciência, pode nos trazer bons frutos independente de onde quer que venha.

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