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A(fe)tividade de casa

Data: 3 de maio de 2018

Como levar um pouquinho de escola para casa? Diante desta pergunta, decidimos, junto com os pais dos grupos iniciais, enviar semanalmente uma atividade para casa. Aqui não estamos nos remetendo, exatamente, ao tradicional “Dever de Casa”, e nem estabelecendo apenas regras de organização e cumprimento da tarefa. Os propósitos destas atividades vão bem além e entram direto no âmago da afetividade, mais exatamente, da autoestima.

Os pais da Casa Escola são bastante preocupados com a qualidade de formação de seus filhos e, ao se remeterem à atividade escolar, procuram ajudar o(a) filho(a) à sua maneira, com o intuito de que a criança possa “acertar”. Nesse sentido, os paradigmas da condução da tarefa passam a ser outros e autorizam-nos a perguntar: O que seria o certo ou o errado? Será que nas “respostas” só existem estas duas modalidades, o certo e o errado? É errado errar?

Ao longo desta experiência, os pais têm uma função primordial, o de se tornarem mediadores. No entanto, antes de tocar neste ponto, vamos começar pelo começo. Para obter os efeitos desejados, de auxiliar na formação de pais mediadores, a escola também precisa elaborar exercícios desafiadores, criativos, que instiguem as crianças e que colaborem com o processo positivo de suas aprendizagens. É por isso que todas as atividades da Casa Escola têm seus objetivos bem explicitados, seja na pintura, na colagem, ao rasgar o papel, entre outras. Nada é aleatório, tudo é muito bem pensado. Mas, mesmo assim, a questão é não cair no tarefismo, quando as atividades se tornam práticas repetitivas e enfadonhas para as crianças e para pais que se empenham em não mostrar falhas (suas e da criança). Nesse sentido, posicionam-se frente ao filho(a) pelo viés do certo e do errado, por vezes, chegando a fazer a tarefa pela criança, na perspectiva de trazer o modo de como aprenderam quando eram crianças. Exposta a atitude de desaprovação, a criança se retrai, passa a não gostar de fazer atividade de casa e nem de expor o que sabe fazer à sua maneira, pois o olhar da desaprovação inibe. Então como agir e o que fazer com crianças tão pequenas que precisam retornar à escola com essas atividades feitas?

afetividade_de_casa_destaque-300x176 A(fe)tividade de casa

Os propósitos das atividades vão além de regras de cumprimento e organização; eles alcançam o âmago da afetividade.

Pais do século XXI estão sempre apressados e trazem em suas falas que não têm tempo suficiente para auxiliar o filho em casa. Então que tal criarmos filhos mais autônomos para o futuro, que possam lidar com suas tarefas “sozinhos”, sem necessitar de tanta ajuda? Consideremos, então, a atividade de casa um investimento amoroso, e nessa empreitada consciente os pais (e avós) do GI e GII, desde de 2017, de maneira bastante graciosa, embarcaram.

Nessa parceria, os pais logo compreenderam que não era preciso a criança acertar, o mais importante seria curtir. A princípio, os depoimentos vieram cheios de graça, mostrando que as crianças queriam amassar o papel, comer o macarrão destinado à colagem, continuar a atividade em outros locais da casa colando e desenhado em outras folhas e até nas paredes. As atividades passaram a ser divertidas, tanto para a criança assim como para o adulto. A partir disso, aconteceu a transformação – os pais, agora mais observadores, viraram mediadores: quando o foco passou a ser na ação e não no acerto, as crianças começaram a ensinar que suas atitudes, não tão convencionais, são legítimas. Com isso, elas puderam passar da linha, colar atrás e até riscar depois de tudo parecer pronto. Para tanto, no estágio da elaboração, as atividades precisam ter em sua composição espaço para criatividade e serem flexíveis de modo a respeitar o momento da criança. Já recebemos algumas folhas (no caso de atividade em folha) de volta de casa arrumadinha na pasta, outras, toda rasgada e isso não desaprovou a criança, apenas nos apontou para a “fase” dela, o que nos armou de outras ideias para oferecermos novas possibilidades para o grupo.

Pensando nisso e levando em consideração que, para os Grupos (inicial e dois), tudo é uma novidade, o mediador não pode cair na ansiedade de ver a tarefa terminada logo e nem de vê-la como se fosse do adulto. O incentivo está presente na paciência, na voz, na disposição e, principalmente, no olhar – a base da formação da autoestima do pequeno. Caso a criança não queira realizar a atividade naquele momento, então deixe-a para fazer em outro horário, mas não desista de todo, apenas retome em outra ocasião. É muito importante que a criança sinta prazer ao realizar a atividade de casa sob a mediação e aceitação afetiva do adulto que propõe, aceita, espera, instiga, pergunta e não dá resposta certa. Nessa conduta aberta, é importante deixar fluir e transparecer, acima de tudo, a identidade da criança, com as imprecisões e ousadias em função de sua própria criação coberta de afetividade.

Artigo escrito por Priscila Griner, diretora da Casa Escola, com colaboração de Mikarla Gomes, Izabela Rocha (professoras) e Claudiana Ferreira (coordenadora da Ed. Infantil).

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